23.3.09

Ao longo de 10 anos a morar em quartos alugados, a dividir casas com todo o tipo de pessoas, nunca me esqueço do ano em que morei numa casa centenária com mais 4 raparigas e 2 cães. E a melhor parte de toda aquela convivência foram os animais. Até porque sempre quis ter um cão e durante um ano foi como se tivesse. Havia o Boss...o rafeiro mais esperto que alguma vez conheci, e o Molenga...o cachorrinho mais preguiçoso e indisciplinado à face da terra...mas muito engraçado!

Nenhum dos dois me pertencia, mas o Boss adoptou-me. Passava a maior parte do tempo no meu quarto, debaixo da cama quando voltava de um engate e não queria que ninguém o chateasse ou quando tinha demasiado calor, e aos pés da cama quando era inverno. Rosnava baixinho quando sentia perigo, a nossa casa era térrea e não era invulgar o gozar de uma bebedeira mesmo em frente, ladrava quando nos sentia ameaçadas...ficava à porta quando queria sair à rua e quando voltava "batia" para o deixarmos entrar. A sua forma de nos pedir comida era um longo olhar de sentido sofrimento enquanto confortava o focinho na nossa perna em busca de alguma consideração pelo enorme pesar de não poder partilhar da nossa refeição.

O seu reinado foi seriamente perturbado quando uma das minhas colegas resolveu trazer uma bolinha de pêlo preto muito quieta para dentro de casa...após algum tempo a preguiça deu lugar a uma perseguição diária ao cão mais velho que o novato secretamente admirava, com direito a mordidelas na brincadeira e uma ou duas rosnadelas mais sérias por parte do Boss, quando este já não aguentava mais aqueles dentinhos afiados nas suas canelas...Sendo um jovem cachorro era necessário educá-lo...ou pelo menos fazer com que não fizesse as suas necessidades dentro de casa o que era a sua tendência eterna e após um sermão da minha parte, o piqueno era imediatamente apaparicado pela dona...

Em breve o Boss apercebeu-se que o Molenga só entrava no meu quarto quando eu não estava lá...o pobre cachorro estava traumatizado com os meus ralhetes, mas isso serviu muito bem o propósito dele de se livrar do pestinha...de cada vez que se fartava da brincadeira, entrava muito senhor do seu reino no quarto e deixava um triste cachorro à porta sem saber o que fazer...acabou por se ir embora algum tempo mais tarde com a dona para uma outra cidade.

Eu adorava o Boss e cheguei a separá-lo de outro cão com medo que se magoasse...coisa que nunca se deve fazer...por isso quando finalmente chegou a hora eu de me ir embora, à medida que o quarto ia ficando mais e mais vazio, o Boss ficava à entrada da porta de casa, deitado com o focinho sobre as patas e o olhar mais triste do mundo...

Após a minha mudança, quando voltei a visitar a dona, a reacção dele não foi das melhores...como se não me perdoasse por tê-lo deixado...foi o cão que mais amei e admirei à face da terra e adorava que tivesse sido o meu cão...e durante um tempo foi...

P.S.: Isto tudo porque fui ver o Marley & Me, que me fez recordar do imenso amor que o Boss me deu e que eu senti por ele...

1 comentário:

Pedro Barata disse...

Memórias boas! :)