11.2.09

Quinta do Sol...

artist: Dwor-kin

A noite passada sonhei com o Bruno. O meu melhor amigo das minhas férias de infância que encontrava todos os anos quando ia com os meus pais passar uns tempos à casa dos meus tios. A casa era simples, eles eram caseiros numa quinta para os lados de Setúbal.
A casa grande, por outro lado, parecia-nos um palácio dos contos de fadas e de cada vez que a minha tia ia lá fazer alguma coisa, nós imploravamos para ela nos deixar entrar..."só se se portarem muito bem e se prometerem que não mexem em nada..." no final ela cedia e nós entrávamos por uma das portadas que davam para o jardim em frente, com fontes, lagos, estatuetas, um relógio de sol e muitas flores, cuidadas pelas mãos mágicas do meu tio. Lá dentro era escuro e frio, o chão de tijolo vermelho era duro e ocupado por tapeçarias gastas pelo uso, movéis que faziam lembrar a época medieval, as paredes estavam cobertas por estatuetas, imagens, milhares de santos, peças que me disseram mais tarde ser de colecionador e muito valiosas. Lembro-me de pensar que não se conseguia ver um milimetro de parede, com tanta coisa que a cobria. O corrimão das escadas para o segundo andar tinha no começo uma bola de vidro azul lapidada e enorme...acho que foi dai que veio o meu gosto por bolas de vidro... No segundo andar o que mais me chamou a atenção foram os armários com portas de madeira pesadas e muito trabalhadas...mesmo na inocência dos meus poucos anos me conseguia aperceber da imponência daquelas portas. Por baixo das escadas entrávamos na cozinha, com as paredes cobertas por azulejos pintados à mão (mais tarde foi-me dito que teria sido o antigo dono a criá-los). Os azulejos diziam para quem ainda não soubesse o nome daquela quinta que povou os sonhos de todas a crianças que por lá passaram: Quinta do Sol.

Sempre que chegávamos da praia tomávamos um banho de mangueirada no jardim...imaginem um grupo de crianças, primos, primas, irmãos e amigos que se juntavam naquela quinta, a correrem de um lado para o outro, a rirem, a saltarem e a sonharem. Eu e Bruno faziamos parte desse grupo e quando mais ninguém estava eramos nós os responsáveis pela alegria daquele jardim...mais tarde foi-me dito que não nos largávamos, ele defendia-me de tudo e eu a ele, eramos nós contra o mundo. Ele de caracóis loiros e eu de caracóis castanhos, cabelo curto e olhar matreiro, ele mais do que eu, passávamos o Verão sempre juntos...

Com o tempo o meu cabelo foi crescendo, ele deixou de poder ir para a praia conosco, tinha de ajudar os pais no café. Com o tempo a Quinta do Sol foi vendida a quem apenas queria fazer dinheiro com ela, venderam todo o conteúdo em leilões e os terrenos em volta para construir moradias modernas, os diferentes e antigos azulejos que decoravam o jardim foram pilhados por quem de certo reconhecia o valor potencial daquele pequeno tesouro...os meus tios arranjaram a sua quintinha e sairam da casa do caseiro.

A última vez que fui lá o meu coração ficou demasiado apertado...e ainda fica...ainda me lembro de quando pensava que quando fosse grande ia comprar a Quinta do Sol e fazer uma pousada...foi decerto um dos lugares que mais amei na vida e que me ensinou a sonhar!

2 comentários:

Pedro Barata disse...

Boas recordações!!! E recordar é viver...
Beijinhos

madmax disse...

Ya, deste post gostei muito, tá muito bem escrito e é o meu estilo, gosto de reminiscências. Pena que tenham acabado com a Quinta do Sol, pela descrição faz lembrar aquela cena dos putos nos contos de Narnia.

Bjs.